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sábado, 31 de maio de 2014

[VOCÊ, ESSA BELEZA INESPERADA]

Quando saio sem destino e presto atenção no mundo, ele parece maior. O mundo, não o destino. Esses dias, eu andei por São Paulo e tive a sensação de caminhar no meio de livros gigantes. Livros divinamente enfileirados, imponentes. É impressionante! É como se eu, daqui da calçada, tivesse sido engolido por aquelas lombadas de concreto. Me senti um personagem fugitivo, recém escapado de uma dessas histórias cotidianas e que agora se esconde sem rumo no meio dos carros, no meio do caos, no meio dos e-mails, no meio de outros tantos personagens.
Todos esses livros ainda estão em construção. Tenho certeza. A estrutura está montada, construída, edificada. Mas sinto que os personagens ainda não estão à vontade, transitam pra lá e pra cá como se procurassem a melhor história para se encaixar. Nenhuma história parece bonita. As avenidas são os corredores principais dessa biblioteca sem fim. Ali estão os personagens que encontramos nas leituras. Ali estão os dramas, as damas, as tramas, os traumas, essas coisas que viram histórias. Algumas serão impressas, outras serão erguidas, outras serão simplesmente memorizadas. Guardadas em nós como se guarda uma voz após pedir silêncio.
Nossos braços pequenos não conseguiriam abraçar esses livros imensos. Nossas mãos pequenas seriam incapazes de virar uma página sequer. Deve ser difícil virar a página, né?. Ô, se é… Mas acredito que seja mais difícil não ter página para virar. Sorte nossa que temos imaginação. O nome das ruas separa as categorias: Literatura Brasileira, Literatura Estrangeira, Arte, Viagem, Gastronomia, Poesia. Poesia? O que é isso? Uma casinha rebelde e colorida no meio de tanta modernidade. Sempre à margem. Olha lá, seu Drummond na portaria, abrindo as portas da poesia moderna. Bom dia, Carlos! Tudo bem? 
Seu silêncio me conforta.
Cada metro andado é como se cada centímetro quadrado fosse o início de uma nova palavra, de uma nova trama… De um novo trauma? Quem é o autor? Seria romance? Terá final feliz? Quando será publicado? Aliás, erguido! Cada página, um andar. Cada capítulo, um apartamento. Cada morador, um enredo. Procuro nas placas, nos letreiros algum nome, alguma indicação, uma sinopse… Não há assinatura, o autor é sempre desconhecido. Só vejo o nome dos prédios: Edifício Guardanapo´s (nome fictício, obviamente). É difícil acreditar que estão escondendo a Poesia. Quem organizou essa bagunça? Na correria, tropeço. Ops, pula, é Autoajuda! Quanto preconceito, menino! Onde foi parar a Arte? Onde está a Literatura Brasileira? Na rua de trás? Como assim? Por que não ficam em destaque, na avenida principal? Aos olhos do mundo… Por quê?
Paro no número 526, sei lá, gostei do jardim. Ainda tem flores. Achei raro. Quais histórias nunca escritas ele ainda guarda nessas paredes imensas? Lourenço, do apartamento 201, tem a cara de Faulkner. Roberta, do 703, seria perfeita para acompanhar Cervantes. Nicolaï, da cobertura, se encaixaria perfeitamente na trilogia de Murakami. E você, essa beleza inesperada que dobra a esquina bem na hora que eu me ajoelho para desdobrar as meias, seria o verso mais bonito de qualquer poema russo.
Preciso respirar.
Nosso romance poderia estar do outro lado da calçada, na prateleira das apostas para 2015. Ou, logo ali, na próxima esquina, junto com os romances consagrados pelo tempo. Espero você se interessar pela leitura. Aviso logo: o começo é sempre um pouco denso, confuso. Mas seus olhos, os mais belos leitores desse mundo, saberão como ninguém conduzir a nossa história.
[Pedro Gabriel autor de ''Eu me chamo Antônio'']

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