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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Depressão por Driquíssima Dias

Depressão é uma doença que deixa um gosto estranho na boca, um gosto de vazio. A gente come, bebe água, café, suco, cerveja, vinho e o gosto continua lá. A gente escova os dentes, usa enxaguante bucal, chiclete de hortelã e o gosto continua lá." Isso é falta de exercício físico", dizem, então vai fazer caminhada, academia, pilates, boxe, capoeira, corrida, natação, trilha, bicicleta.. mas o gosto continua lá. "Você tem que sair de casa!" a gente sai, viaja, vai pro bar, vai pra festa, dança, canta, pula.. mas o gosto continua lá; "ah, é falta de um hobbie, precisa ocupar a mente", então a gente ouve música, lê um livro, vê filme, vê vídeo de gatinhos fofos no Youtube, aprende receitas novas, escreve poesia torta... e o gosto ainda continua lá; reúne amigos, faz comidinhas, toma vinho, dá conselhos, ouve conselhos.. e gosto do vazio permanece; "tem que cuidar do seu espiritual", vai pro centro, vai pra igreja, vai pro terreiro, ouve mantra.. e o gosto continua lá... Aos poucos esse gosto de vazio vai engolindo a boca, o peito e a cabeça, a gente começa a questionar o sentido da vida, da existência humana e tudo começa a se mostrar tão ínfimo e a humanidade tão ridícula e egoísta com suas guerras, o vil metal, as hierarquias.. e a gente olha pro céu e vê que estamos mergulhad@s num infinito e somos tão nada diante daquilo que vemos e não conhecemos... o vazio começar a doer em todo seu corpo... a angústia acompanha dia e noite e não mais existir passa a ser uma possibilidade que acabe com esse gosto de vazio na boca... e tudo ao redor passa a perder o sabor: os pratos salgados não tem sal, os pratos doces não tem açúcar, o limão não tem seu azedume, o perfume não tem cheiro, a musica não tem som, o filme não tem imagem, os livros não dizem nada... tudo ao redor parece desbotar feito uma fotografia antiga sob o sol... o corpo fica pesado, se arrasta lento pelos dias... tomar banho, escovar os dentes, lavar louça, limpar a casa parece não mais ser tão importante e a gente passa a protelar o auto cuidado... não tem apetite nem sede nem sono e a gente começa a perder peso... aquele gosto de vazio na boca dá um cansaço que não deixa a gente levantar da cama e sair de casa parece ser a pior opção...e vem o pânico que tranca as portas e quando a gente ousa sair, se desespera, quer vomitar, quer sair dali, quer voltar pra casa e deitar e ficar deitada até nunca mais... o sorriso de antes murcha feito uma boca sem dentadura.. é que o vazio cresce e começa a querer engolir tudo dentro da gente... A gente então assume que está doente de uma doença silenciosa e ainda incompreendida... e pessoas perguntam porque você ficou assim ou dizem pra tirar isso da cabeça; insultam dizendo que é preguiça, irresponsabilidade, vitimismo, drama, joguinho e que isso é ridículo... mas quem diabos vai escolher adoecer? perguntam/dizem esse tipo de coisa a quem está com câncer ou aneurisma? Mas a gente resiste ao vazio... e resiste porque está envolta em uma rede linda de amor & cuidado: a família, as amigas, os amigos, até mesmo pessoas que não são tão próximas estão ali, tentado colorir os dias desbotados... e a gente entende que precisa viver melhor e precisa de ajuda... procura psiquiatra e psicolog@ e aí começa a trilhar um longo caminho em busca do entendimento dos mistérios de mente e do reencontro com o gosto bom da vida na boca. (Driquíssima Dias)

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